Guia · África do Sul
O Bang-Bang Club
O Bang-Bang Club foi a alcunha de quatro jovens fotógrafos sul-africanos — Kevin Carter, Ken Oosterbroek, Greg Marinovich e João Silva — que cobriram a violência nos townships entre a libertação de Nelson Mandela, em 1990, e as primeiras eleições democráticas, em 1994. Dois deles ganharam o Prémio Pulitzer; no fim de 1994, dois deles tinham morrido. A sua história levanta perguntas sobre a fotografia e a violência que ainda hoje se debatem.
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Uma guerra antes das eleições
Quando Nelson Mandela saiu da prisão, em fevereiro de 1990, a África do Sul iniciou quatro anos de negociações rumo à democracia. Foram também quatro anos de uma violência terrível. Nos townships à volta de Joanesburgo — a região do Reef — e no KwaZulu-Natal, os confrontos entre apoiantes do Congresso Nacional Africano e do partido Inkatha fizeram milhares de mortos. Moradores dos albergues de trabalhadores e residentes enfrentavam-se, comboios eram atacados, e mais tarde provou-se que elementos das forças de segurança armavam e incentivavam a violência: a «terceira força».
Quatro fotógrafos
Um punhado de fotógrafos passava ali os dias. Quatro deles, jovens sul-africanos brancos — Silva nascera em Portugal —, tornaram-se amigos e trabalhavam muitas vezes juntos:
- Ken Oosterbroek, fotógrafo-chefe do The Star, o mais organizado e ambicioso do grupo.
- Kevin Carter, talentoso, inquieto e atormentado.
- Greg Marinovich, vencedor em 1991 do Prémio Pulitzer de fotografia noticiosa pelas imagens de um assassínio no Soweto.
- João Silva, nascido em Lisboa, calmo debaixo de fogo, mais tarde fotógrafo de guerra do The New York Times.
Uma revista sul-africana chamou-lhes os «Bang-Bang Paparazzi»; o nome tornou-se Bang-Bang Club. Não o escolheram, e alguns não gostavam dele.
O Sudão e o Pulitzer
Em março de 1993, Carter e Silva viajaram para o sul do Sudão, onde Carter fotografou uma criança faminta com um abutre atrás. A imagem, publicada pelo The New York Times, ganhou o Prémio Pulitzer de Fotografia de Reportagem em abril de 1994 — e valeu a Carter críticas duras por ter fotografado em vez de ajudar.
Thokoza, 18 de abril de 1994
Seis dias depois do anúncio do prémio, os quatro foram a Thokoza, um township a leste de Joanesburgo onde apoiantes do Inkatha combatiam a Força Nacional de Manutenção da Paz. Oosterbroek foi morto a tiro e Marinovich ficou gravemente ferido. Onze dias depois, os sul-africanos votavam juntos pela primeira vez, e Mandela chegava à presidência.
Em julho de 1994, Carter suicidou-se em Joanesburgo. Lutava há anos contra a depressão e contra o que tinha visto.
O livro e o filme
Em 2000, Marinovich e Silva publicaram The Bang-Bang Club: Snapshots from a Hidden War, o relato desses anos, adaptado ao cinema em 2010 como The Bang Bang Club, com Ryan Phillippe no papel de Marinovich e Taylor Kitsch no de Carter. Silva cobriu depois guerras em todo o mundo e em 2010 perdeu as duas pernas ao pisar uma mina no Afeganistão; Marinovich tornou-se escritor e investigador, nomeadamente do massacre de Marikana, em 2012.
As perguntas que deixaram
A história do Bang-Bang Club é ensinada nas escolas de jornalismo pelas perguntas que levanta. O que devem os fotógrafos às pessoas que fotografam? Quando é que mostrar a violência ajuda a travá-la, e quando se alimenta dela? O que faz a quem a cobre uma guerra seguida durante anos? Os próprios fotógrafos responderam com franqueza, e de maneiras diferentes.
Veja também
O grupo pertence a uma longa linhagem de fotógrafos sul-africanos que documentaram o apartheid com risco de vida — veja a fotografia africana, a nossa lista de fotógrafos sul-africanos e a África Austral.


