Pintor e poeta · Moçambique
Malangatana Ngwenya
Malangatana Valente Ngwenya (1936–2011) foi um pintor e poeta moçambicano e o artista mais conhecido do seu país. As suas pinturas densas e visionárias misturam vida da aldeia, espíritos e violência; foi preso pela polícia política portuguesa nos anos 1960 e, em 1997, a UNESCO nomeou-o Artista para a Paz.
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De Matalana à cidade
Malangatana nasceu em 1936 em Matalana, uma aldeia do sul de Moçambique, então colónia portuguesa. Frequentou a escola da missão, mudou-se para Lourenço Marques — a atual Maputo — e trabalhou como apanha-bolas num clube de ténis privado enquanto estudava à noite e pintava. Dois sócios do clube, Augusto Cabral e o arquiteto Pancho Guedes, incentivaram-no.
A sua obra foi mostrada em público pela primeira vez numa exposição coletiva em 1959. A carreira profissional começou em 1960, quando Pancho Guedes, a quem se atribui a sua passagem à arte a tempo inteiro, lhe deu um ateliê e lhe comprou quadros. A primeira exposição individual seguiu-se em 1961.
Como são os quadros
Um quadro de Malangatana está cheio até às margens: figuras de olhos muito abertos e dentes à mostra, animais, máscaras e espíritos comprimidos uns contra os outros em vermelhos, azuis e amarelos intensos. As cenas vêm das histórias, dos rituais e dos medos da vida da aldeia, da violência colonial e, mais tarde, da guerra. São ao mesmo tempo perturbadoras e festivas.
Como olhar para um Malangatana: comece pelos bordos, onde a multidão aperta, e avance para o centro. Os rostos, os dentes e os olhos repetem-se pela superfície, de modo que nenhuma figura domina, e a cor é aplicada em áreas planas e fortes; o quadro lê-se como uma só massa de corpos antes de se desfazer em personagens individuais. Depois procure as passagens mais calmas, que dão escala à violência. Esta leitura é própria deste site.
Escrevia também poesia, e as suas palavras partilham a intensidade das imagens. Os seus poemas foram publicados na revista Black Orpheus e na antologia Modern Poetry from Africa em 1963.
A prisão
Em 1964, segundo uma fonte, a PIDE, a polícia política portuguesa, prendeu Malangatana pelo seu envolvimento no movimento independentista FRELIMO. As fontes divergem quanto à duração da prisão: uma diz dezoito meses e outra cerca de dois anos. A obra que fez por essa altura constitui um núcleo importante da sua produção inicial.
Murais e vida pública
Em 1971, uma bolsa da Fundação Gulbenkian levou-o a Portugal para estudar gravura e cerâmica, e regressou a Moçambique pouco antes da independência. Depois da independência de Moçambique, em 1975, Malangatana tornou-se uma figura pública: pintou grandes murais em Maputo e participou em muitos projetos culturais e comunitários, e de 1990 até às primeiras eleições multipartidárias foi deputado da FRELIMO. Em setembro de 1997 pintou um fresco durante uma conferência da UNESCO sobre a cultura de paz realizada em Maputo, e nesse mesmo ano a UNESCO nomeou-o Artista pela Paz. Morreu a 5 de janeiro de 2011 em Matosinhos, Portugal, e os seus quadros encontram-se em coleções em Moçambique, Portugal e outros lugares.
Onde ver a obra
A Tate regista-o nas suas páginas de artistas, e a Richard Saltoun Gallery, em Londres, conta-o entre os seus artistas; os museus e galerias de Maputo e de Portugal detêm os maiores conjuntos da sua obra, por isso pergunte-lhes o que está exposto. Os seus murais públicos em Maputo são o outro sítio onde procurar, embora não tenhamos confirmado quais se conservam.
Artistas e música relacionados
Malangatana e Esther Mahlangu são os artistas da África Austral mais conhecidos da sua geração a partir diretamente de formas locais. No norte de Moçambique, os escultores macondes criaram outra grande tradição moderna: veja a arte maconde. Para explorar o mundo lusófono africano, continue com o semba, a canção urbana de Angola, e a morna de Cabo Verde. Compare a sua prisão política com a do modernista sudanês Ibrahim El-Salahi, preso uma década mais tarde.

