Pintor · Sudão
Ibrahim El-Salahi
Ibrahim El-Salahi é um pintor sudanês, nascido em Omdurman em 1930, e um dos fundadores da Escola de Cartum. Combinou a caligrafia árabe com formas africanas e islâmicas, passou seis meses preso sem julgamento em 1975 e, em 2013, tornou-se o primeiro artista africano com uma retrospetiva na Tate Modern.
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Omdurman e Londres
Ibrahim El-Salahi nasceu em 1930 em Omdurman, na margem do Nilo em frente a Cartum. Cresceu com o ensino corânico, e a prática da escrita árabe fez parte da sua infância. Estudou arte em Cartum e, de 1954 a 1957, na Slade School of Fine Art, em Londres.
Encontrar uma linguagem
De regresso ao Sudão, El-Salahi percebeu que a formação europeia não chegava ao seu público. Passou a trabalhar com o que o rodeava: a forma das letras árabes, os padrões do artesanato sudanês, as máscaras africanas e a decoração islâmica. As letras dissolvem-se em figuras e as figuras em ornamento, muitas vezes a preto, branco e tons de terra.
Com Ahmed Shibrain e Kamala Ibrahim Ishaq tornou-se figura central da Escola de Cartum, o movimento que quis dar ao Sudão independente uma arte moderna própria, alimentada pela herança árabe e africana.
O caderno da prisão
El-Salahi ocupou cargos públicos na administração cultural e na diplomacia sudanesas. Em 1975 foi acusado de participar numa tentativa de golpe e preso sem julgamento durante seis meses e oito dias na prisão de Kober, em Cartum. Os presos não podiam escrever nem desenhar. Escondeu um lápis e desenhou nos sacos de papel pardo em que se distribuía a comida, esboçando ideias durante o curto recreio diário.
Depois de libertado produziu o Prison Notebook (1976), uma sequência de desenhos a tinta que registam a experiência. Um desenho deste caderno pertence à coleção do Museum of Modern Art de Nova Iorque.
Como olhar para o Prison Notebook: lembre-se dos sacos de papel pardo em que foram feitos os primeiros esboços, em segredo, nos minutos do exercício diário. Depois veja como a escrita e a figura se fundem: o hábito de escrever em que cresceu é a maneira como os desenhos guardam uma experiência que não podia ser escrita. Este segundo ponto é uma leitura própria deste site.
Exílio e reconhecimento
El-Salahi deixou o Sudão depois da libertação, trabalhou no Golfo e acabou por se fixar em Oxford, em Inglaterra, onde vive há décadas. A obra tardia inclui longas séries de desenhos e pinturas construídos a partir de formas de árvores.
Em 2013 a Tate Modern apresentou Ibrahim El-Salahi: A Visionary Modernist, a primeira retrospetiva que o museu dedicou a um artista de África; esteve em exibição até 22 de setembro de 2013. Ajudou a mudar a forma como os museus da Europa e da América do Norte contam a história da arte moderna. Ganhara o Prémio Príncipe Claus em 2001, e em 2015 a University College London concedeu-lhe um doutoramento honoris causa em Letras. Em 2022 participou na exposição principal da 59.ª Bienal de Veneza, O Leite dos Sonhos.
Obra recente e onde a ver
Entre as exposições mais recentes contam-se Pain Relief Drawings na Kunsthalle Zürich em 2023 e Haraz, de 7 de junho a 27 de outubro de 2024. As listas de coleções citam o Museum of Modern Art, o Metropolitan Museum of Art e o Guggenheim Abu Dhabi entre os museus que possuem a sua obra, embora não tenhamos verificado a página de cada museu. A Vigo Gallery, em Londres, que o representa, anunciou para 2026 uma exposição sobre os seus primeiros anos, de 1950 a 1968. O arquivo da Tate sobre a retrospetiva de 2013 e a página do Fundo Príncipe Claus sobre o seu prémio são os melhores pontos de partida.
Artistas e movimentos relacionados
A fusão de escrita e imagem de El-Salahi tem paralelos no Norte de África e no mundo árabe, sobretudo na Escola de Casablanca de Farid Belkahia. No Egito, uma geração anterior liderada por Mahmoud Saïd já defendera uma arte moderna enraizada na vida local. Para a arte antiga e cristã da vizinha Etiópia, veja a arte etíope. Os seus contemporâneos e sucessores sudaneses vão de Hussein Shariffe a Ahmed Umar.
