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Fotógrafo · África do Sul

Ernest Cole

Ernest Cole (1940-1990) foi um fotógrafo sul-africano cujo livro House of Bondage (1967), publicado em Nova Iorque depois de ter deixado o país, mostrou ao mundo o que o apartheid fazia ao quotidiano. O livro foi proibido na África do Sul; Cole nunca voltou e morreu em Nova Iorque em 1990, dias depois da libertação de Nelson Mandela. Em 2017 foram encontrados cerca de 60 000 negativos seus num banco sueco, e em 2024 o filme de Raoul Peck sobre ele ganhou o prémio de documentário em Cannes.

Atualizado a 4 min de leitura

Fotografar o apartheid por dentro

Ernest Cole cresceu num township perto de Pretória e deixou cedo a escola, em 1953, quando o governo do apartheid impôs o sistema de Educação Bantu; em vez disso, concluiu um diploma por correspondência. Em 1958 candidatou-se a um lugar na Drum, a revista que deu a toda uma geração de escritores e fotógrafos negros sul-africanos a primeira oportunidade, e o editor de fotografia Jürgen Schadeberg aceitou-o como assistente. No início dos anos 1960 começou a trabalhar como freelancer para a Drum, o Rand Daily Mail e o Sunday Express, o que fez dele o primeiro fotógrafo freelancer negro da África do Sul. Um relato diz que aos vinte anos conseguiu ser reclassificado como «coloured», o que lhe dava um pouco mais de liberdade de movimentos e o direito de exercer como fotógrafo. Fixou-se num único tema, enorme: o que o apartheid fazia às pessoas que viviam sob ele.

Fotografou o que a maior parte do mundo nunca viu. Mineiros despidos e inspecionados em grupo. Homens mandados parar e presos ao abrigo das leis do passe. Salas de aula sobrelotadas, enfermarias, comboios e bancos segregados, criados em casas brancas, famílias numa só divisão. Trabalhava com cuidado e muitas vezes com risco, e muitas das imagens só podiam ter sido feitas por alguém que pertencia aos lugares que fotografava.

House of Bondage

Em 1966, Cole saiu da África do Sul com os seus negativos. Mostrou o seu trabalho à Magnum Photos, a que esteve brevemente associado, e o projeto foi financiado em parte pela Fundação Ford e pela Time-Life. House of Bondage, publicado em Nova Iorque pela Random House em 1967 com as suas fotografias e texto, foi um dos primeiros livros a mostrar a um público internacional o funcionamento quotidiano do apartheid. Foi proibido na África do Sul, e em 1968 as autoridades proibiram o próprio Cole e retiraram-lhe o passaporte, pelo que não pôde voltar a casa.

Como olhar para o livro: leia-o como uma sequência, e não como imagens soltas. Os temas vão das leis dos passes às escolas, minas, comboios e casas, pelo que o argumento se constrói por repetição e não por uma imagem famosa. Repare que muitas fotografias só podiam ser tiradas por dentro, de perto e muitas vezes com risco. A Aperture reeditou House of Bondage em 2022, o que facilita voltar a lê-lo.

O exílio

Os últimos anos foram difíceis. Entre 1969 e 1971 passou longos períodos na Suécia, onde se ligou ao coletivo Tiofoto e expôs o seu trabalho. A partir de cerca de 1972 a sua vida desorganizou-se: deixou de trabalhar como fotógrafo e perdeu o controlo do arquivo e dos negativos. Morreu de cancro do pâncreas em Nova Iorque, a 18 de fevereiro de 1990, aos 49 anos, uma semana depois de Nelson Mandela sair da prisão.

O arquivo perdido

Durante décadas, grande parte da obra de Cole foi dada como perdida. Em 2017, mais de 60 000 dos seus negativos, desaparecidos há mais de quarenta anos, apareceram num cofre de um banco em Estocolmo, e em abril de 2018 foram entregues aos herdeiros, que tinham criado o Ernest Cole Family Trust. Outras 504 provas guardadas pela Fundação Hasselblad estiveram muito tempo em litígio; segundo uma notícia da Goodman Gallery de dezembro de 2024, a fundação entregou ao trust quase 500 provas de época no início desse ano. O realizador haitiano Raoul Peck construiu em torno deles o seu documentário Ernest Cole: Lost and Found, que ganhou o Œil d'or, o prémio de melhor documentário, no Festival de Cannes de 2024.

Onde ver a obra

A Tate Modern mostrou fotografias de Cole na sua exposição Artist and Society, e a Magnum Photos divulga o seu trabalho e vende provas e livros na sua loja. Ernest Cole: Lost and Found é o filme a ver para conhecer a história do arquivo recuperado.

Ver também

A obra de Cole está ao lado da de Peter Magubane e de David Goldblatt na fotografia documental do apartheid. Leia a fotografia africana e veja a nossa lista de fotógrafos sul-africanos.

Fotógrafo de vida selvagem

Austin Stevens

África do Sul · 1950–

Austin Stevens, herpetólogo e fotógrafo de vida selvagem nascido na África do Sul, apresentou Snakemaster e viveu 107 dias numa jaula com 36 serpentes.

Fotógrafo

David Goldblatt

África do Sul · 1930–2018

David Goldblatt (1930-2018) fotografou seis décadas as minas, os subúrbios, os trabalhadores e os edifícios da África do Sul, e fundou o Market Photo Workshop.

Fotojornalista

Kevin Carter

África do Sul · 1960–1994

Kevin Carter cobriu a guerra dos townships e fez em 1993, no Sudão, a fotografia da criança e do abutre que ganhou o Pulitzer. A vida, a obra e o debate.

Forma de arte

Fotografia africana

História da fotografia africana: primeiros estúdios, Seydou Keïta e Malick Sidibé, a Drum e o apartheid, J.D. 'Okhai Ojeikere, Zanele Muholi e festivais.