Tradição têxtil · Gana
O kente
O kente é um pano tecido à mão no Gana por tecelões axantes e ewe, com tiras estreitas de seda, algodão ou raiom tecidas em teares horizontais de pedais e cosidas lado a lado. Outrora pano de prestígio de chefes e da realeza, tornou-se símbolo da independência do Gana e da herança africana em todo o mundo, e em dezembro de 2024 a UNESCO inscreveu o saber-fazer do kente na sua lista do património cultural imaterial da humanidade.
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Como se faz o kente
O kente é tecido num tear horizontal de pedais que produz uma única faixa estreita, com cerca de dez centímetros de largura. O tecelão — tradicionalmente um homem — aciona os pedais com os pés para levantar grupos de fios da teia e passa a trama à mão, construindo o padrão em blocos: troços de riscas de teia alternam com blocos em que a trama cobre a teia com cores e motivos contrastantes.
A longa faixa é cortada em tiras, que são cosidas lado a lado de modo que os blocos formem um xadrez no pano acabado. Um pano de homem completo, usado enrolado ao corpo e por cima de um ombro como uma toga, precisa de muitas tiras, pelo que uma só peça pode levar semanas ou meses a tecer.
Kente axante e kente ewe
Dois povos tecem kente, e ambos têm tradições fortes:
- O kente axante, da região Ashanti em torno de Kumasi, é conhecido pelas cores vivas e pelos blocos geométricos ousados. A vila de tecelões de Bonwire é o seu centro mais famoso. Os axantes chamam ao pano nwentoma, «pano tecido»; a palavra kente é muitas vezes associada a um termo fante que significa cesto, pelo aspeto entrançado do pano. A tradição axante conta que dois homens de Bonwire aprenderam a tecer observando uma aranha a tecer a teia. Outrora, os melhores panos de seda eram feitos para o Asantehene, o rei axante, e alguns padrões estavam reservados à realeza.
- O kente ewe, tecido na região do Volta, no Gana, e no Togo, usa muitas vezes algodão e cores mais sóbrias, e pode incluir motivos figurativos — pessoas, animais, objetos — tecidos no pano. Agotime é uma área de tecelagem ewe de renome, que realiza todos os anos um festival do kente.
A inscrição da UNESCO de 2024 nomeia os axantes e os ewe como as comunidades detentoras deste saber.
Nomes dos padrões e cores
Cada padrão de kente tem um nome, muitas vezes tirado de um provérbio, de um acontecimento histórico, de uma pessoa ou de uma situação social. Oyokoman tem o nome do clã Oyoko, o clã real axante; Adweneasa, «a minha perícia esgotou-se», é um pano tão denso que todos os blocos são decorados; Sika futuro, «pó de ouro», refere-se à riqueza.
As cores têm associações, embora não constituam um código rígido e as fontes variem. Os significados mais citados são:
| Cor | Associações comuns |
|---|---|
| Ouro ou amarelo | Riqueza, realeza, fertilidade |
| Verde | Crescimento, colheita, renovação |
| Vermelho | Luta, sacrifício, paixão política |
| Azul | Paz, harmonia, amor |
| Preto | Maturidade, os antepassados, energia espiritual |
| Branco | Pureza, celebração, vitória |
| Grená ou castanho | A terra, a cura |
Um símbolo nacional e pan-africano
Quando o Gana se tornou independente, em 1957, o kente tornou-se um emblema nacional. O primeiro presidente do país, Kwame Nkrumah, usava-o em ocasiões oficiais, no país e no estrangeiro, e o pano passou a representar toda a África independente. Na diáspora africana, sobretudo nos Estados Unidos, usam-se hoje estolas de kente nas cerimónias de graduação, e os seus padrões aparecem em tudo, das vestes de igreja ao vestuário desportivo.
Kente tecido e «kente» estampado
A maior parte do «kente» vendido no mundo é tecido estampado que imita o padrão. Um pano tecido à mão mostra as costuras entre as tiras estreitas, ligeiras irregularidades na tecelagem e o mesmo padrão nos dois lados. Os preços dependem do material (seda, raiom ou algodão), da complexidade do padrão e da reputação do tecelão. Comprar diretamente aos tecelões de Bonwire, Agotime e outras localidades apoia quem mantém viva esta arte.
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O kente é muitas vezes usado com o pano adinkra estampado, o outro grande têxtil axante, e comparado com ele. Para o panorama geral, veja os têxteis africanos. As tapeçarias de cápsulas de El Anatsui lembram as tiras e os blocos do kente, e o highlife ganês é a música que tocava nas celebrações da independência em que se usava o kente.
