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Pintor · Argélia

M'hamed Issiakhem

M'hamed Issiakhem (1928-1985) foi um pintor argelino, um dos fundadores da arte moderna da Argélia. Aos quinze anos, a explosão de uma granada matou duas das suas irmãs e um sobrinho e custou-lhe o braço esquerdo. Formou-se em Argel e Paris, foi amigo e colaborador de toda a vida do escritor Kateb Yacine e pintou o sofrimento da guerra, sobretudo mães e viúvas, num poderoso estilo expressionista. Desenhou também notas e selos argelinos.

Atualizado a 3 min de leitura

M'hamed Issiakhem

O acidente

M'hamed Issiakhem nasceu a 17 de junho de 1928 numa aldeia da Cabília e cresceu em Relizane, no oeste da Argélia. Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, tinha quinze anos quando uma granada tirada de um acampamento militar explodiu em casa da família. Morreram duas das irmãs e um sobrinho. Issiakhem sobreviveu, mas teve de lhe ser amputado o braço esquerdo, e passou longos meses no hospital. Os relatos divergem nos pormenores: algumas fontes dizem que a granada vinha de um acampamento francês e outras de um americano, e uma indica que perdeu o braço abaixo do cotovelo.

O trauma marcou toda a sua vida e obra. A dor, a perda e os corpos dos feridos estão por toda a parte na sua pintura.

Argel, Paris e Kateb Yacine

Depois da guerra estudou na escola de belas-artes de Argel de 1947 a 1951, incluindo miniatura com Omar Racim, e em 1951 conheceu o jovem escritor Kateb Yacine, autor de Nedjma. Foi o início de uma amizade que durou até à morte do pintor: os dois trabalharam juntos em livros, cartazes de teatro e filmes, e eram conhecidos como os «gémeos de Nedjma».

De 1953 a 1958 estudou na École des Beaux-Arts de Paris. Durante a guerra de independência viveu entre a França e a Alemanha, e em 1962, o ano da independência, regressou à Argélia e trabalhou como cartunista no jornal Alger Républicain.

A pintura

Issiakhem era expressionista. As suas telas são escuras e muito trabalhadas, construídas com camadas espessas de tinta que raspava, riscava e retrabalhava; delas emergem figuras meio formadas, de olhos fundos. O seu grande tema foi o sofrimento do povo argelino na guerra: mães com crianças, viúvas, as mulheres que esperavam e choravam. Pintou também retratos inesquecíveis.

Como olhar para um Issiakhem: olhe para a superfície antes do tema. A raspagem e os retoques são visíveis, e fazem o quadro parecer escavado do seu fundo e não pousado sobre ele. Depois procure a figura, que muitas vezes só emerge devagar da pintura. Esta leitura do seu modo de trabalhar vem das descrições da sua técnica e é própria deste site.

Como o amigo Mohammed Khadda, queria uma arte moderna argelina livre do exotismo colonial; mas, enquanto Khadda se voltou para a abstração e os sinais, Issiakhem ficou com a figura humana.

Um artista nacional

Na Argélia independente ensinou na escola de belas-artes de Argel e em 1963 foi um dos fundadores da união nacional das artes plásticas. Desenhou notas de banco e selos argelinos, de modo que a sua obra passou pelas mãos de milhões de pessoas; o catálogo Numista de desenhadores de moedas e notas inclui uma nota de 5 dinares entre as suas obras. Em 1980 recebeu em Roma o Simba d'or (Leão de Ouro), um prémio de arte africana apoiado pela UNESCO. Uma pintura de 1980, Femme et mur, está entre as obras registadas dos seus últimos anos.

Morreu em Argel a 1 de dezembro de 1985, aos 57 anos.

A amizade com Kateb Yacine

Kateb Yacine, a quem se atribui tê-lo iniciado na cenografia teatral, continuou a ser o seu colaborador mais próximo. Artigos da imprensa argelina descrevem os dois como inseparáveis desde os primeiros anos em Paris; a amizade durou até à morte de Issiakhem em 1985.

Onde ver a obra

O Musée national des Beaux-Arts d'Alger regista La Mendiante e Mère inconnue na sua coleção, e o museu nacional de arte moderna e contemporânea de Argel publicou o catálogo de uma exposição de 2010. Pergunte a ambos os museus quais as obras expostas, porque as exposições mudam.

Ver também

Mohammed Khadda e Bachir Yellès, seus contemporâneos; a pintora argelina Baya; o nosso guia da arte do Norte de África; e a nossa lista de pintores africanos.

Pintor

Bachir Yellès

Argélia · 1921–2022

Bachir Yellès, de Tlemcen, pintor e autor de selos, dirigiu vinte anos a escola de belas-artes de Argel e morreu em 2022 aos 100 anos.

Pintora

Baya

Argélia · 1931–1998

Baya (1931–1998) tinha dezasseis anos quando a Galerie Maeght expôs as suas pinturas em Paris, com prefácio de André Breton. A vida, as mulheres, os jardins.

Pintor

Mohammed Khadda

Argélia · 1930–1991

Mohammed Khadda, aprendiz de tipografia em Mostaganem, foi um fundador da pintura argelina moderna e fez das letras árabes uma linguagem abstrata livre.

Guia

História da arte africana

A arte africana, do desenho de Blombos (73 000 anos) a Nok, Ifé e Benim, das máscaras e têxteis ao modernismo e aos artistas de hoje: uma história breve.